Meus maridos e minhas mulheres
Aprendi isso no meu grupo de meditação. O casulo. Esse lugar igualmente confortável e tenebroso. Mais popularmente conhecido como “zona de conforto”. Quem não tem seu próprio casulo? Desde que me joguei na deliciosa jornada de tentar conhecer a mim mesma, comecei a criar consciência de quais seriam os meus casulos.
Tenho, e tive, vários. Já tentei me esconder neles várias vezes. Por puro medo, claro.
No livro “Shambhala – A Trilha Sagrada do Guerreiro”, do monge budista Chögyam Trungpa (nossa referência constante na meditação), há um capítulo todinho dedicado ao casulo. Diz o autor:
“O caminho da covardia consiste em nos embutirmos num casulo, dentro do qual perpetuamos nossos processos habituais.
Reproduzindo constantemente nossos padrões básicos de conduta e pensamento, jamais nos sentimos obrigados a dar um salto ao ar livre ou em direção a um novo campo”.
O casulo traz, como ele mesmo diz, aquela sensação gostosa e segura do ventre materno. Estamos protegidos dos perigos do mundo, sem perceber o perigo disso.
Creio que foi com medo de “encasular” que criei o hábito de me jogar por aí: pedir demissão, ficar sem dinheiro, ficar sem casa, ficar sem rumo. Só que nossa mente, zás-trás, cria casulos sem a gente nem perceber. Outro dia me peguei caindo da cilada do ciúme, do medo da perda, do apego, das certezas reconfortantes. Que ingênua. Ali estava eu de novo, tão corajosa e igualmente medrosa.
A verdade é que os casulos sempre hão de pintar por aí. Assim sendo, tá decidido. Meus casulos sempre terão vista para o mar (ou para a Serra da Cantareira, como de fato tenho), que é para eu jamais esquecer do horizonte, da brisa, do cheiro de sal e do desconhecido.
Débora – A Encasulada
São 17h30 de uma quinta-feira. Essa era a hora em que, até duas semanas atrás, eu atingia o auge da minha concentração no trabalho. Não via o sol se pôr, não sentia o dia esfriar, não via a agitação da vida que volta do trabalho a partir das cinco. No máximo, ia tomar um lanche fora da revista e via alguns fragmentos disso tudo. E logo voltava à baia. Nessas minhas duas primeiras semanas sem trabalho, me dei a chance de simplesmente observar a vida que existe à tarde.
São velhinhas na porta do SESC e crianças voltando da escola – os principais personagens que deixam de existir para quem bate cartão. São donas de casa ou mães trabalhadoras que se desdobram em mil para estar na porta da escola do filho na hora certa. São os adolescentes que fazem cursos extracurriculares após a escola. São universitários que ainda não conseguiram o estágio, o primeiro emprego e - fazer o quê, né? - ficam nas chinelas, lendo um livro na livraria cultura ou no café.
A cidade vibra à tarde. Uma vibração diferente daquela da manada que entulha os trens de manhã e no fim do dia. A cidade vive. Bom recordar isso de vez em quando.
Débora – A Divorciada
Você é
mesmo um hacker.
Depois de
16 anos nesta vida de “jornaleira”, já posso dizer que passei
por um bocado de lugares. Nesta carreira instável que escolhi, é um
eterno começo e recomeço, num jornal aqui, numa revista ali, outro
frilinha (lê-se trabalho freelancer) cá... E me dei conta de que a
maioria das pessoas com quem convivi ficam só na memória. Assim
como as reportagens viram vagas lembranças (a maioria nem me lembro,
confesso) ou guardadas (perdidas) no armário, ou apenas dentro do
Google mesmo.
Mas outros não. Muitos transcenderam as
dificuldades, a pouca grana ou os chefes pentelhos e se transferiram para um patamar mais elevado do que simples colegas de redação.
1. Chego na estação Luz de trem, tento desembarcar, mas sou levada de volta pela turba afoita – a maioria, mulher - que quer garantir um assento. Quase caio. No dia anterior, uma mulher perdeu o sapato ao tentar sair. Deselegância total.
2. Uma colega é chamada para ajudar a outra num trabalho problemático, mas ao ler o relatório feito pela que começou, só faz críticas e reclama do que já foi feito. Deselegância total.
3. Um homem para na faixa de pedestre e, ao ouvir um pedestre reclamando, avança nele. Mais que deselegância total. Agressividade total.
4. Funcionários de uma empresa criam uma concorrente usando a estrutura do seu empregador. E abandonam o emprego todos ao mesmo tempo. Deselegância total.
5. Um homem escarra na rua. Deselegância total.
6. Um homem mija na rua. Argh. Nojura total.
7. Uma pessoa cobra dinheiro da outra na frente de todo mundo. Deselegância total.
8. Baladeiros que ficam gritando na frente da sua casa, às 4h. 5h ou 6h da manhã. Durante a semana...educação zero.
9. Mães que dão broncas escandalosas, com direito a tapinhas na mão do no filho pequeno, na frente de todo mundo. O mesmo vale para briga de cônjuges. Uó.
10. Papel ou absorvente cheio de sangue escancarado na lixeira do banheiro. Xixi e cocô que foram esquecidos na privada.
O mundo anda um pouco deselegante.
Quer continuar essa lista?
Obrigada!
Débora - A Divorciada

E vocês, como gostam de dizer que se amam? Eu quero saber. A aguardo comentários inspiradores.
Beijos, beijos, beijos,
Isabela – A Casada e A Esplêndida