Um mau ano
E, finalmente, o terceiro lugar. Emílio Yamane e sua história de uma paixão não correspondida.
Devo começar dizendo que não foi um período de 365 dias muito agradável, afinal, não herdei nenhum vinhedo no sul da França. Algumas coisas aconteceram, marcantes pra mim, sem dúvida, mas que dependendo da definição de "especial", podem ser assim classificadas ou não.
Em outubro do ano passado eu era apenas mais um carinha mediano poraí. Ia pro trabalho, ia pra academia, fazia curso de línguas (japonês, só pra não dizer que era totalmente "padrão"). E mais importante de tudo: estava apaixonado. De verdade. Coisa rara pra mim (até agora, nesta vida, contam-se duas vezes).
Aí acabei passando em um concurso, mas pra outra cidade, Curitiba. Salário melhor, trabalho melhor. E eu não fui. O motivo "oficial" é que eu não quis mudar da pacata Floripa pra cosmopolita Curitiba. O motivo de verdade é que nessa época eu ainda tinha esperanças idiotas.
Nessa mesma época, acabei fazendo algo inédito (pra mim, claro, pra tanta gente é coisa tão banal...). Me declarei pra 'ela'. E como já esperado, levei um fora. Com aquele terrível papo de "você é uma pessoa especial", "vamos ser amigos" etc... Na época, até tentei. Como diria o Chaves, "que burro, professor, dá zero pra ele". Certas coisas simplesmente não funcionam.
Sabe, um pedaço de mim morreu naquela hora, mas eu só vim a ter consciência disso depois de uns tempos...
E assim, as coisas foram se tornando insípidas, sem graça nenhuma. Aos poucos, parei de fazer quase tudo o que era da minha antiga rotina, exceto ir trabalhar (afinal, preciso do dinheirinho todo mês). Ir trabalhar, se não era tão mal assim, se tornou um suplício, pois trabalho na mesma empresa que ela.
Me tornei (mais) mal-humorado do que de costume, nervoso, com raiva do mundo. Pessoas lidam com a tristeza de diferentes maneiras, a minha maneira é transformá-la em raiva. Como parei com a academia e de fazer qualquer outra coisa, engordei uns 10 quilos. Deixei a barba crescer,toda desgrenhada, assim como o cabelo. E principalmente, deixei de acreditar. Em esperanças, em tudo.
Nessa época, comecei a assistir o seriado do House. Me identifiquei muito com o personagem, especialmente pela infelicidade que o acompanha. Se bem que não considero 'infelicidade' a melhor palavra para tal, prefiro a palavra 'miséria', que em português geralmente as pessoas associam mais ao aspecto financeiro, mas que expressa melhor o que o House é (ou era): um miserável, no sentido mais amplo da palavra.
E assim como o House (spoilers!), uma hora a gente tem que deixar de ser (pelo menos tão) miserável. Não é fácil, e nunca vai ser como era antes.
Van Gogh disse, usando suas últimas palavras, que "a tristeza durará para sempre". Apesar de não ser acalentador, nem reconfortante, eu concordo com ele. Esse tipo de tristeza a gente leva pra sempre, mesmo que guardada numa caixinha escondida lá no fundo. Mas não, eu ainda não guardei a minha numa caixinha.
E chegando aqui, percebo que não sei como terminar esse texto. Queria poder dizer que tudo vai passar, que tudo vai melhorar, mas não acredito mais nesse tipo de palavra. Mas também não queria terminar o texto muito deprê (de deprê, basta eu).
Então, vou terminar o texto com um desejo: de que pra você, tenha sido um bom ano. Com ou sem uma boa safra de vinhos.






