Criaturas estranhas: convenientes
Observar as pessoas, e a si mesmo, é um ótimo esporte. Encaixa-se na categoria atividade mental, não tem lá grandes contra-indicações, nem idade para começar. Mas, depois de pegar o jeito e encontrar a sua própria maneira de praticá-lo, é difícil largar e muito fácil criar seus próprios vícios. Os bons observadores diriam que os convenientes estão por toda a parte. Entre as criaturas estranhas da fauna humana são os que mais prejudicam, de forma aparentemente inofensiva.
Desta turma, há um tipo mais conhecido como "folgado". Sabe aquela galera que, na faculdade, adorava montar aqueles grupos de oito cabeças? Pois é, dois ou três colocavam a mão na massa e o resto ia na aba. O resto eram os convenientes, o pessoal que toca a vida daquela maneira bem espaçosa e você que se vire para ficar confortável na nesga que lhe resta do sofá.
Tem também aqueles que evitam dizer o que pensam para não se aborrecerem. Garanto que tem muita vovó de leitores que se encaixariam como uma luva neste perfil. Não retrucavam o marido rabugento para passar longe da aporrinhação de uma discussão que não levará a nada; muito menos àquela altura do campeonato. O problema é que tem gente bem mais nova que adota este comportamento enquanto há tempo de sobra para mudar tudo. Aliás, gosto de acreditar que sempre dá tempo...
Tem por aí ainda aquele namorado - ou namorada - que não contraria o seu amor por nada deste mundo. Nestes casos, podem existir dois convenientes por definição. O que não contraria e o que faz o que bem entende; mesmo sabendo não estar agindo da melhor maneira com o outro em muitas das vezes. São dois convenientes que se encontram e formam aquela combinação perfeita. A relação, no final das contas, funciona.
Mas é curioso pensar se a situação fosse inversa: o que faz o que bem entende certamente iria acender a luz amarela e deixar isso bem claro para o outro. Será que o que não contraria seria capaz de colocaria um ponto final na história? Ou retomaria as antigas regras do jogo? Às vezes o desfecho pode ser surpreendente.
Agora, desta turma toda o mais prejudicial é o conveniente que fala o que todo o mundo quer ouvir. Conhece aquele tipo de pessoa que tem um discurso que você certamente já ouviu antes? As palavras, o jeito, o momento em que diz as coisas. Tudo soa como um filme reprisado. São aqueles comentários que, se transportados para uma recepção de consultório odontológico ou para dentro de um elevador, caberiam perfeitamente.
Claro que a vida também é feita de amenidades, de comentários vazios, do dizer pelo dizer. Não dá para sacar uma grande pensata a todo o instante. Para isso, nada melhor do que preencher o tempo dizendo umas belas bobagens, dar umas risadas sobre temas nonsense e tirar algumas boas conclusões a respeito.
O problema é que o conveniente é pobre em senso de humor e resvala nas palavras vazias de sempre, nos conselhos genéricos e na bengala do senso comum. E se a criatura precisa de um balde de realidade e, no lugar disso, ouve do conveniente exatamente o esperado? A ilusão continua e a criatura estranha da vez perdeu, de novo, uma oportunidade excelente de manter a boca fechada.
Giovana - está solteira

