"O-Negai Shimasu". Com essa expressão e um cumprimento, iniciamos o treino com o colega no Aikido. É um ritual repetido diversas vezes durante um único treino. Inúmeras vezes em uma vida dedicada à prática. E mesmo que já me pareça quase automático, ainda considero um dos momentos mais lindos da aula.
A expressão tem dois significados. Um deles é "por favor". E se quiser deixar mais bonitinho, pode pensar assim: "Por favor, conceda-me o prazer desta luta". Mas o outro significado, tradução literal da expressão, é ainda mais profundo. "Eu entrego minha vida em tuas mãos". Não é lindo isso? Eu fico emocionada toda vez que digo e que escuto. Significa que, a partir daquele momento, você confia plenamente no colega. Ele não vai te machucar, não vai te ferir. Vai treinar com você vigorosamente, mas te preservando.
Eu confio muito nas pessoas. Até naquelas que não conheço. O Charlie (meu ex-marido, para quem não se lembra), costumava dizer que eu sempre parto do princípio que as pessoas são todas confiáveis. Depois, aos poucos, vou desconfiando caso se mostrem pouco fidedignas. E que ele é o contrário: primeiro desconfia e, aos poucos, vai baixando a guarda. Ele brincava que tinha medo de um dia chegar em casa e eu ter acolhido uns desabrigados ou levado uns desconhecidos para jantar.
Acho o procedimento de Charlie mais seguro. E mais saudável. Mas não sei ser assim. Nasci dizendo O-Negai Shimasu à vida. E pago um preço alto por isso. Porque se eu confio até nos mais carrancudos, que dirá naqueles que me abrem os braços ou me estendem a mão? Se alguém me diz "eu te amo", eu acredito. E confio. E me entrego. Se alguém me diz "eu te ajudo", eu acredito. E confio. E me entrego. Porque quando me dizem isso, é como se estivessem dizendo: pode vir, eu estou aqui e te ajudo a segurar a onda.
Talvez porque eu seja assim, acredito que os outros também vão ser. Quando estendo minha mão, abro meus braços, minha casa, minha vida. Meus sentimentos. Algumas leitoras do 3x30 já perceberam isso. Desconhecidas distantes me agradecem pelas minhas palavras e me contam suas histórias. Eu, sem cerimônia, conto a minha de volta. Nessas, fiz uma grande amiga virtual. Sou também a que mais fala da vida pessoal aqui nesse blog. Minha irmã briga comigo. Diz: "Ah, já dividiu isso com seus 400 leitores diários?" (São trezentos. Ela exagera)
Passei minha vida me cobrando para ser mais fechada. Mais reservada. Não me abrir tanto para quem não conheço, nem que fosse para preservar ao menos aqueles que estão a minha volta. Esse ano eu tomei umas pauladinhas educativas nesse sentido. Me serviram para mostrar muita coisa. Principalmente que nem todo mundo segura a onda. Nem todo mundo tem força o suficiente para lidar com os sentimentos e continuar estendendo o braço. Que ninguém é mesmo 100% altruísta, benevolente. E não é que eles mentiram quando se mostraram confiáveis. Mas que são humanos. E humanos erram, tropeçam, têm medo, se traem. Humanos recuam.
Mas eu, estranhamente, continuo dizendo O-Negai Shimasu.
Eu confio.
Débora - A Descasada