quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Eu confio

"O-Negai Shimasu". Com essa expressão e um cumprimento, iniciamos o treino com o colega no Aikido. É um ritual repetido diversas vezes durante um único treino. Inúmeras vezes em uma vida dedicada à prática. E mesmo que já me pareça quase automático, ainda considero um dos momentos mais lindos da aula.

A expressão tem dois significados. Um deles é "por favor". E se quiser deixar mais bonitinho, pode pensar assim: "Por favor, conceda-me o prazer desta luta". Mas o outro significado, tradução literal da expressão, é ainda mais profundo. "Eu entrego minha vida em tuas mãos". Não é lindo isso? Eu fico emocionada toda vez que digo e que escuto. Significa que, a partir daquele momento, você confia plenamente no colega. Ele não vai te machucar, não vai te ferir. Vai treinar com você vigorosamente, mas te preservando.

Eu confio muito nas pessoas. Até naquelas que não conheço. O Charlie (meu ex-marido, para quem não se lembra), costumava dizer que eu sempre parto do princípio que as pessoas são todas confiáveis. Depois, aos poucos, vou desconfiando caso se mostrem pouco fidedignas. E que ele é o contrário: primeiro desconfia e, aos poucos, vai baixando a guarda. Ele brincava que tinha medo de um dia chegar em casa e eu ter acolhido uns desabrigados ou levado uns desconhecidos para jantar.

Acho o procedimento de Charlie mais seguro. E mais saudável. Mas não sei ser assim. Nasci dizendo O-Negai Shimasu à vida. E pago um preço alto por isso. Porque se eu confio até nos mais carrancudos, que dirá naqueles que me abrem os braços ou me estendem a mão? Se alguém me diz "eu te amo", eu acredito. E confio. E me entrego. Se alguém me diz "eu te ajudo", eu acredito. E confio. E me entrego. Porque quando me dizem isso, é como se estivessem dizendo: pode vir, eu estou aqui e te ajudo a segurar a onda.

Talvez porque eu seja assim, acredito que os outros também vão ser. Quando estendo minha mão, abro meus braços, minha casa, minha vida. Meus sentimentos. Algumas leitoras do 3x30 já perceberam isso. Desconhecidas distantes me agradecem pelas minhas palavras e me contam suas histórias. Eu, sem cerimônia, conto a minha de volta. Nessas, fiz uma grande amiga virtual. Sou também a que mais fala da vida pessoal aqui nesse blog. Minha irmã briga comigo. Diz: "Ah, já dividiu isso com seus 400 leitores diários?" (São trezentos. Ela exagera)

Passei minha vida me cobrando para ser mais fechada. Mais reservada. Não me abrir tanto para quem não conheço, nem que fosse para preservar ao menos aqueles que estão a minha volta. Esse ano eu tomei umas pauladinhas educativas nesse sentido. Me serviram para mostrar muita coisa. Principalmente que nem todo mundo segura a onda. Nem todo mundo tem força o suficiente para lidar com os sentimentos e continuar estendendo o braço. Que ninguém é mesmo 100% altruísta, benevolente. E não é que eles mentiram quando se mostraram confiáveis. Mas que são humanos. E humanos erram, tropeçam, têm medo, se traem. Humanos recuam.

Mas eu, estranhamente, continuo dizendo O-Negai Shimasu.

Eu confio.

Débora - A Descasada

25 comentários:

Fabi disse...

Diria que essa é minha maior ou pior qualidade, mas também tenho dito que confio, acredito, as vezes dá certo outras não, mas isso é meu e quando não dá certo, tento não ficar tão decepcionada com as pessoas, pq como vc disse são humanos e os mesmos recuam...

Bjo e adoro o blog!

12 de novembro de 2009 13:00
Sal disse...

É por vc dizer "O-Negai Shimasu" a vida, q eu, aqui da ponta do nordeste, interpreto "ônêga, shei mas'is!" (ô nêga, achei massa isso!)...

E é por vc dizer "O-Negai Shimasu"... q eu sou cada vez mais sua fã!! E q eu releio, quase q diariamente,seus escritos, entre posts e emails...

É por vc dizer "O-Negai Shimasu" que, a minha balança de final de ano entre "expectativas x frutações x conquistas" , pesa muito mais p o lado da conquista... pq se eu pensei até setembro q meu 2009 não respondeu a altura o meu "O-Negai Shimasu" ... eu pude entender em meados de outubro, 2009 me trouxe o "O-Negai Shimasu" em pessoa... pessoa Deb, q vc é... alegre, fiel, transparente e altamente confiável!!!

Se vc pensa q fez UMA amiga virtual nessas... pode contar com DUAS, pq vc sabe q, assim como vc, eu costumo a abrir as portas da minha casa e oferecer rede e colchão inflável para os que eu digo ""O-Negai Shimasu"!!!

Obrigada por existir, e por ser imutavelmente você!!!

beijo queridaaa

12 de novembro de 2009 13:25
Tati disse...

Eu sou a Charlie versão feminina, rsrs. Mas... meu coração briga constantemente com minha razão. Então já abriguei varios desconhecidos por passagem em Sampa, já dei carona, já olhei nos olhos de um migrante e confiei nele e dei dinheiro e fiz um mapa para ele chegar no destino. Já chamei atenção de um professor na faculdade que fazia piada sobre homossexuais e tinha um na sala, já deixei de tirar férias pq pessoas da minha família estavam passando apuros e eu dando um "suporte". Enfim... no fim.. eu confio.

12 de novembro de 2009 13:56
A JARDINEIRA disse...

Lindo, Dedé, lindo mesmo. Desde que vc me disse, pela primeira vez, o que isso significava fiquei tocada. Tão forte. Lindo texto _ e eu tb sou assim (acho). Depois a gente junta os cacos... Beijo, beijo, beijo.

12 de novembro de 2009 15:04
Nina disse...

Débora,


Nossa, eu ia adorar ser sua amiga.
Eu também sou bem como você.
Ainda não sei se isso é bom ou ruim, mas eu não tenho medo de confiar.
Mesmo quando as coisas não estão bem, mesmo quando as pessoas me desapontam, eu procuro julgar cada fato e cada ser por si só.

Ah, meu irmão também faz aikido, mudou a vida dele, sabia?

12 de novembro de 2009 15:54
Andarilho disse...

Eu sou mais como o seu ex, não confio mesmo.

O meu lema era o do Arquivo-X, trust no one, hehe

12 de novembro de 2009 16:42
Nina disse...

Oi,

Obrigada pelo comentário.
Passei a ficha do meu irmão pra vc na resposta, no meu blog, rs!

beijo!

12 de novembro de 2009 16:54
Sanzinha disse...

Acho bonito ser assim.
Mas, em se tratando de confiança, jogo no time do Charlie.
Sou mais reservada, sempre fui.
Mas que bom que as pessoas são diferentes! ;)

Beijocas!

12 de novembro de 2009 18:35
Lili disse...

Déds...
Sou um pouco Charlie, mas muito mais "Bee", rsrsrs

Isso que escreveu é incrívelmente fácil de notar em você...

Essa sua entrega diária para diversas coisas de diversos gêneros é que te faz ser sempre e, cada vez mais, MAIS AMADA!

Sou sua fã!
(não canso MESMO de dizer).

Post lindo, PURO e sincero!

Amo vc

Olívia

12 de novembro de 2009 18:49
Filha do Sol na terra das brumas disse...

"O-Nega Shimasu" pra você SEMPRE, minha amiga querida.

Post lindo!

Bjs

12 de novembro de 2009 19:20
Marta Melo disse...

Como sempre neste blog,amei esse texto...Eu já fui muito mais ingênua,hoje posso dizer que depois que passei certas coisas fiquei mais pé atrás.Mas ainda creio que vale a pena acreditar nas pessoas.Bjs

12 de novembro de 2009 19:38
3 x Trinta - Solteira, Casada, Divorciada disse...

Amiga,

Acho vc nobre por ser capaz de gostar assim, sem restrições, tão generosamente. Parabéns por isso.

Beijão,

Bela - A Divorciada

12 de novembro de 2009 23:19
Graci disse...

Que post lindo!!!
Eu sou fechada demais.... tenho que aprender a dizer: "O-Negai Shimasu"

=)

13 de novembro de 2009 00:47
mulherpolvo disse...

Debs, vc já sabe que eu sou assim. Já leu meu blog, meus e-mails... Não sei se é defeito ou qualidade, na verdade, já não me interessa mais saber. Neste caso, sou como sou, e vejo nos outros a mesma bondade, o amor e a amizade que irradio para o próximo, e sentimentos elevados nos protegem da maldadde do mundo.
E, se algo me acontece, junto meus cacos, mas não, não lamento essse jeito de ser.

13 de novembro de 2009 09:25
Rita H. Abematsu disse...

Confiar é algo que se conquista, nem sempre se dá, mas cada um faz o que o coração manda.

Preservar-se, para mim é algo primordial, principalmente devido a minha profissão. Eu aprendi a me preservar mais depois que mudei de profissão.

Logo, dependendo do rumo que a gente escolhe percorrer a vida ensina a confiar, a preservar...

Diria que tudo é equilíbrio ;)

Adorei o texto, vc se despe mesmo hein.
bjs

13 de novembro de 2009 10:17
madja laila carlos lopes disse...

Debora, a divorciada, a sensível.

Belo texto :)

Deixa eu me reapresentar. Meu nome é Laila, passei uns dias em são Paulo e acabei conhecendo vc em um sanduba tosco qualquer e depois, no alegre aniversário do Gabis. Foi uma noite de muito bate- papo entre duas mulheres pré- divorciadas.

Ainda estou devendo textos para o blog.

bjos

13 de novembro de 2009 10:31
Dione disse...

Você confia??? Eu também... Até que me prove o contrário eu amo, acredito, confio, ajudo, respeito, admiro... É errado isso? Acho que não...

Um grande beijo e um ótimo final de semana!

13 de novembro de 2009 13:15
Isabela. disse...

Um dos melhores texto que já li no blog.
É um tema que mexe um pouco comigo, pois assim como o seu marido, não confiava nas pessoas assim, de cara. Sofri um pouco com isso, mas como quase sempre acontece, me apaixonei e a pessoa, que era dessas que confiam, acreditam e se entregam, me ensinou um pouco da arte!
Você diz no texto que levar as relações desse modo (desconfiando de tudo) é mais saudável, mas esqueceu de dizer que é muito mais sem graça, e por que não? sem vida.
Continue confiando e sem peso na consciência.

Como quase nunca tenho tempo de comentar, vou aproveitar pra dizer que eu ADORO o blog, e que leio todos os textos.
Um beijo.

13 de novembro de 2009 16:23
Eu,Mulher, na Idade Madura disse...

Olá Débora! Nossa, esta parte de você..do "eu confio" ( até nos carrancudos), é tão igual ao jeito que sou. Olha estou tendo problema com uma de minhas noras, bem por isto,mas também porque( e vc tem razão novamente) a gente não é mesmo perfeita, mesmo que pense que tinha a obrigação de ser e, tudo que enche.. um dia entorna!
Tive de criar o blog cartaspradesabafar, exatamente por isto! Por compreender meus limites e, por querer respeitar os dela, pois, não ia adiantar querer vomitar pra ela, toda a raiva que ela me fez sentir ( e até da que eu senti por estar sentindo raiva sem poder controlar todos os meus sentimentos. É complicado...)
Mas, escrever no blog me fez refletir melhor e ontem mesmo,resolvi as coisas com muito mais calma( e um tiquinho de bom senso que eu só não conseguia ter, porque tenho mesmo uma lente meio azul, nos meus óculos)
Abraço grande pra você.

13 de novembro de 2009 20:04
Giovana disse...

É querida... tudo tem seu revés, por isso, continue assim. O importante é a gente ser o que é. Beijos, Gio - A Solteira.

14 de novembro de 2009 00:39
Paulo disse...

Oi, sou irmão da Ana do blog "Menina de Cachos" e ela me enviou teu texto, achei demais. Treinava em São Paulo com o Maruyama sensei, hoje em floripa treino num dojo filiado ao Kawai sensei. Sobre o assunto poesia tenho um livrinho escrito, se quiser posso te enviar, manda um mail pra gente ter um canal de conversa.

Abraço

Paulo

16 de novembro de 2009 12:58
Anônimo disse...

Será que as pessoas não recuaram também por conta do seu comportamento? Será que só elas erraram?

17 de novembro de 2009 08:44
3 x Trinta - Solteira, Casada, Divorciada disse...

Sem dúvida. Eu, como qualquer ser humano, também escorrego. E quando é assim, nada que um bom diálogo não resolva. Não achas?

beijo!

Débora

17 de novembro de 2009 15:21
Lili disse...

Anônimo...
Mais uma vez eu peço: IDENTIFIQUE-SE!

Por que tens medo?
kkkkkkkk

Olívia

17 de novembro de 2009 16:01
日月神教-任我行 disse...

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