segunda-feira, 9 de abril de 2012

Meus maridos e minhas mulheres


Alguma outra mulher além de mim, diante de alguma patacoada do marido, já se perguntou um dia se só as lésbicas são felizes, por serem casadas com outras mulheres?  Pois bem, a leitora Cecília Amarante, de 34 anos, dentista, é capaz de esclarecer a minha dúvida. Ela já foi casada quatro vezes: duas vezes com homens e duas com mulheres. Foi só saber disso, claro, para pedir post. Vamos ouvi-la então? Poucas pessoas que eu conheço têm mais o que dizer em matéria de casamento do que ela.

Obrigada, Cecília! Mesmo. Amei o texto. Parabéns pela coragem, torço por você, be happy.

Beijos, beijos, para a nossa autora de hoje e para vocês todos,

Isabela – A Casada e A Curiosa

Eu tinha 18 anos quando aproveitei um raro dia de camaradagem entre eu e minha mãe para lhe contar uma coisa que me era muito importante naquele momento dividir:

 - Mãe, eu vou morar com a Alice.
- Vai morar com sua amiga, então?
- Mãe, ela não é minha amiga, é minha namorada.

Ela ficou em choque, chorou uma semana e por uns três meses não falou comigo. Não a culpo, eu simplesmente deveria ter contido o meu impulso “sincericida”. O fato é que, àquela época, perdidamente apaixonada que estava pela minha então patroa – alguns bons anos mais velha –, eu estava obviamente cega e tinha certeza de que era lésbica.

A relação durou quase quatro anos, o suficiente para viver várias fases: paixão, vida em comum, crises, relações familiares, e ciúmes, muitos ciúmes. Ela me deu um carro e, na primeira noite, fez questão de ir me acompanhando para saber quanto tempo eu gastaria entre nossa casa e a faculdade. Se eu me atrasasse um pouco, o mundo caía.

Com o tempo eu fui percebendo que a relação era como uma bolha. Toda nossa vida em comum era uma repetição de programas, companhias e padrões.  Não havia espaço para improvisações, nem para espontaneidade. Eu tinha 21 anos e fui com os amigos da faculdade para um seminário numa outra cidade. Participei das palestras, mas nas horas vagas, eu me dediquei a matar as saudades de estar com um homem.  Atolada em culpa, contei tudo a ela na volta, declarando-me bissexual (o pesadelo das lésbicas).

Fui mirim, eu sei. Ela quebrou o apartamento todo, enquanto eu quase podia garantir que se houvesse trilha sonora, seria a Elis Regina cantando Atrás da Porta. Peguei minhas (poucas) coisas e fui para um apartamento, morar sozinha. Lembro-me bem, era uma quinta-feira. Na sexta, uma amiga me ligou convocando-me a estar num jantar com outros amigos, alegando que eu precisava de companhia neste momento.

Foi uma noite deliciosa entre amigos queridos até hoje.  Também especial por causa de um par de meias alaranjado usada por um homem heterossexual (HT). Achei aquele tipo HT com alma gay muito interessante, tanto que dei para ele naquela mesma noite, e fiquei casada (com ele) por quase cinco anos.

Foi uma relação muito didática. Com ele, aprendi o quanto é delicioso cozinhar para os amigos em casa, escapar para uma cachoeira no final de semana, ligar para os amigos para saber se estão bem. Mas ele é um tipo mal humorado e com o tempo foi se fechando de tal forma, que não era possível para mim acessá-lo mais, sequer ajudá-lo. Então, fomos nos distanciando um do outro, até que a separação ocorreu.

Voltei para casa da minha mãe, e tive que ouvi dela que não sei “segurar homem“. Não a culpo. Ela é de uma geração que foi criada para casar-se para sempre.

Mudei de emprego e de cidade, e durante muito tempo só namorei, ou fiquei mesmo sozinha. Até que conheci o Artur. Mesmo padrão: HT sem preconceitos, sem frescuras – alma 60% gay. É talvez um dos homens mais feios que já vi, mas fiquei fascinada pelo mundo dele, e na sua forma muito particular ele era um ugly sexy. Era para ser só um namoro, mas fomos morar juntos quando fiz uma cirurgia delicada e acabamos nos casando de papel passado, com direito à mudança de nome da minha parte. De novo, eu estava cega de paixão.

Até o casamento foram quatro anos, e depois, menos de um ano. Sim, me separei menos de um ano depois de ter me casado no papel, e transei com ele no dia em que assinamos nossa separação diante da juíza. A crise toda começou porque ele não aguentou a barra de me dividir. Explico-me: um dia ele me disse que eu poderia ter quem eu quisesse, desde que (1) não levasse esta pessoa para nossa casa, (2) não andasse com esta pessoa nos lugares que frequentássemos e (3) que eu não me apaixonasse.

Olhando por perspectiva, os dois primeiros itens são fáceis, mas o terceiro é uma incógnita, de tão imprevisível quanto imponderável. Ele não suportou meu encantamento por uma jovem estudante de medicina, que conheci numa boate gay na minha cidade natal.

Depois de mais este casamento que deu certo, mas que durou tão pouco, eu resolvi que não dividiria mais minha vida com ninguém. Até que conheci a Duda. Tive um estalo, e na hora pensei “eu quero esta mulher para mim”. Na tarde do dia em que a conheci, escrevi no MSN para um amigo que eu havia conhecido a minha futura esposa.
Tem uma piada que ilustra bem o que aconteceu entre nós:

- Sabe o quê uma sapa leva no segundo encontro?
- Não, o quê?
- A Granero (a mudança, as chaves).
- Sabe o quê um gay leva no segundo encontro?
- Que segundo encontro?

Em menos de um mês depois que nos beijamos pela primeira vez, ela estava morando na minha casa. Fiz por ela o que a Alice tinha feito por mim, ou seja, cuidando mais financeiramente do que afetivamente. Assim, da mesma forma alucinante que nasceu, a relação morreu, um ano depois, sufocada por cobranças, ciúmes e paranoias. Dei um basta e o que se seguiu lembrou-me novamente a Elis Regina.

Foram então quatro casamentos, sendo um apenas com papel passado, dois com homens, dois com mulheres, e não posso dizer que os melhores foram estes ou aqueles. Em todos, a união só ocorreu porque eu estava apaixonada e queria muito viver a experiência de estar na companhia daquela pessoa. De minha parte, posso afiançar que nunca me importei com pequenas coisas, tampouco com a dor da separação, donde nunca me faltou vontade de pular de cabeça em todas minhas paixões.

No entanto, hoje, pensando de forma um tanto mais racional, quero viver um dia de cada vez quando conhecer um novo amor. Sem pressa, sem atropelar fases, ir sentindo a relação amadurecer serenamente.

Se será com um homem, ou com uma mulher, só depois poderei lhes contar. Para mim, o que importa é sentir as borboletas batendo asas na barriga e a vontade de engolir aquela pessoa inteira, impressionada com o que quer que seja que venha dela.

Não me importo com grana ou posição social: quero é me apaixonar de novo. Arrependimento só o de ter saído do armário para minha mãe. Eu poderia tê-la poupado disto tudo.

Cecília Amarante 

10 comentários:

Debby disse...

Meninas, perdi o fôlego rsrs
Cecilia parabéns por sua coragem.
De relacionamento gay.. que não era totalmente gay foi meu de ter me apaixonado por meu melhor amigo na época que era completamente gay e das minhas tolas e totalmente frustradas tentativas de convertê-lo rsrsrs
Adorei o post
Bjs
Debby :)

9 de abril de 2012 01:19
Andarilho disse...

Adorei o post.

9 de abril de 2012 08:45
Evelin disse...

Uau. Adorei sua história. Posso concluir que há muito mais ciúme em um relacionamento com mulher? Ah, e o que seria necessariamente alma gay? Sua conclusão de "casamento que deu certo" também achei interessante.

Sorte com seu novo amor.

beijos

Evelin

9 de abril de 2012 08:59
Anônimo disse...

Cecília, nome da minha heroína fictícia!

Uau...depois de uma separação e uma super frustração eu já me sinto cansada. Imagino quatro casamentos!!! Com ambos os sexos!

Corajosa!

Obrigadíssima pelo depoimento =)

bjão

deb

9 de abril de 2012 11:43
A. Marcos disse...

Uma coisa me pareceu bem clara: os homens são mais divertidos e têm menos cobranças. Se assim for mesmo (e minhas amigas gays dizem que é) parece importante as mulheres hetero teram algo refletir...

9 de abril de 2012 13:15
Carol disse...

Dias desses uma amiga comentou que pensava em ter novas experiências, com mulheres, pois estava cada vez mais difícil com os homens. Sugeri que ela mudasse de raça, já que difícil mesmo é lidar com gente, rs.

Adorei o post! Cecília arrasou.

Beijos

9 de abril de 2012 14:51
Anônimo disse...

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9 de abril de 2012 19:13
Diguê disse...

Isso que é ter amor pra dar e vender. Parabéns pela coragem de se jogar e obrigada pela colaboração. Volte sempre.

Bjos da Solteira

10 de abril de 2012 18:35
Sérgio Gillet disse...

Adorei a história, você teve quatro relações bem loucas, por assim dizer, e não importou o sexo do outro, né? Isso que é ser bem resolvida, olha...

Só não gostei da última frase, pois é impossível poupar alguém do que se é.

11 de abril de 2012 14:02
Frô disse...

Ô Cecília, não se arrependa de nada não. Sua mãe te apoiou depois do seu casamento, mesmo com todas as críticas. Vocês ainda são próximas? Eu acho que no seu lugar também teria contato. Minha mãe é uma excelente amiga e me sentiria horrível de guardar tamanho segredo.
Quanto à amores, eu também sou de me jogar apaixonadamente e não vejo nada de errado nisso. Papel ou não papel já não é tão importante. E eu concordo com você que seus casamentos deram certo.

Que venha o próximo para nós duas!

Frô.

18 de abril de 2012 04:33