quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Carta de amor fonte times, corpo 12, espaço 1,5

Os dois se conheceram na faculdade. Ele gringo, americano da Califórnia, mãe chinesa, pai judeu. Olhos verdes, rosto exótico, signo de Leão, e um português perfeito demais para quem estava há apenas três meses no Brasil. Enfim, uma mistura irresistível, impossível de passar em branco. O primeiro encontro foi numa aula, Cultura Brasileira era o tema. Mais adequado, impossível.

Rapidinho ficaram amigos. Amicíssimos melhor dizendo. Muitas voltas no calçadão de Copacabana, Ipanema e Leblon falando sobre o mundo, culturas e afins. Cinema, risos, festas, olhares intermináveis e bate-papos também. Ora em inglês, ora em português. Viviam grudados. Em comum, também, a timidez.

Um belo dia, uma colega de classe...

...peraí, rápido resumo da menina, sente o drama: americana, shape Burger King no café da manhã-almoço-jantar, caipira do Ar-kan-sá, sotaque de Pato Donald e, acho até hoje, com uma quedinha pelo american boy*...

.... menciona que o charme exótico ambulante talvez não fosse numa festa porque sua "girlfriend" não poderia. Epa! Armadilha linguística: seria amiga ou namorada? "Pato Donald" do Ar-kan-sá aprendeu português em Portugal. Falava pessimamente a língua de Camões e não fazia o menor esforço para reverter a situação. Ainda bem, pois quando tentava era um ora pois, ó pá só.

Não demorou muito para a verdade aparecer. Ele foi na festa, sim. Com a namorada. Menina emburrada e de olhar torto. "Ah, então é VOCÊ a amiga que ele fala tanto". Por pouco o cabelo da amiga não virou aço, os não olhos envesgaram e uma verruga não saiu no nariz com aquela mirada de ódio da menina.

O tempo passou e ele foi embora. Ia para a Itália e depois voltaria para casa. De Firenze, chegou um cartão. Lindo, escrito de próprio punho e prometendo contar tudo da viagem quando retornasse ao destino final.

Dito e feito, a tal carta chegou. Mas, engraçado, tava digitada no computador. Fonte Times, corpo 12, espaçamento 1,5. Pedaços em inglês, outros em português, como as conversas de antes. Deu para ler perfeitamente as quatro páginas, todas frente e verso. Começou pelos últimos destinos na Europa, seguiu por uma rápida passagem por Nova York para visitar o tio doente e, finalmente, aportou em casa.

Daí, foi um desabafo dele das lembranças do Brasil. E ela estava em todas as linhas. Assim como o arrependimento dele de não ter se declarado, que era ela quem ele queria e em quem pensava todos os dias. Agora, lá do outro lado do continente, sentia saudade do que não foi vivido. Mas não mencionava qualquer gana de correr atrás do prejuízo. Tava resignado, era prático. Afinal, digitou tudo no computador, fonte Times, corpo 12, entrelinha 1,5. A perícia norte-americana que descreve as reações do cérebro apaixonado, também serve para formatar o sentimento via correio.

Diante daquela situação, ela não teve dúvidas: rasgou a carta em mil pedaços, jogou no lixo e deu por encerrada a questão. Precisava de um amor à caneta, letra furiosa, algumas rasuras, e que resultasse em mochila nas costas e vontade de cruzar até o oceano para vê-la de novo. Por um cara desse, ela estava disposta a seguir o mesmo script de quem não tem tempo a perder.

A Solteira

* Não clicou no link? American boy, da Estelle. Musicão, me gusta. Vai lá, última chance.

3 comentários:

Mariana Fernandes Lixa disse...

Adorei o espaço por aqui, coloquei nos meus links favoritos e a visita diária vai virar rotina!!! Amei...

27 de novembro de 2008 22:00
3 x Trinta - Solteira, Casada, Divorciada disse...

Resumindo: o cara é a versão masculina da Vicky. Isso é mal de americano é? hehe

beijosss

A Casada

27 de novembro de 2008 22:32
3 x Trinta - Solteira, Casada, Divorciada disse...

Amiga Solteira,

Nada como um sotaque, não é mesmo? E, assim como eu, sei que vc prefere o acento hispânico....

Beijos,

A Divorciada

27 de novembro de 2008 23:16