quarta-feira, 17 de junho de 2009

O amor da gente é como um grão

Nosso blog anda meio "separação" demais. Parece triste, e até é. Mas é só uma fase. Minha, da Roberta e de outras leitoras que têm passado por aqui e deixado tristes relatos. Mas quem nos acompanha faz tempo sabe que somos super alto astral, divertidas, charmosas e muito felizes. Mas que, principalmente, olhamos de frente para as questões árduas da vida. Adoramos compartilhar algumas experiências com vocês. E ouvir as vivências de vocês.

Essa carta eu escrevi ontem à tarde, após chegar na minha casa provisória, depois de ter almoçado com Charlie, apelido que nós três demos ao meu (ex) marido. É uma carta para ele. Mas resolvi mandá-la por aqui para dividir com vocês toda a ternura que ainda sinto por ele. E para mostrar que por mais difíceis que sejam as separações, é possível passar por isso com respeito e carinho em relação ao próximo. Como prova de que não se joga fora assim histórias de amor que um dia já foram muito belas.

beijos

Débora



Meu querido Charlie,

Acabo de sair do seu carro. Estou saindo da sua vida. Lembra de quando eu entrei nela? Eu tinha 22 anos e um medo danado do mundo. Você me acolheu, me protegeu. Me “pegou para criar”, como você gostava de brincar. Você me ensinou o que era a paixão sem freios. E depois me ensinou o que era o amor. De mãos dadas nós construímos uma vida, uma história. Um começo de tantos desencontros só podia dar errado. Deu certo! Dos tempos de namoro no sofá da casa de mamãe nós evoluímos para os namoros na tua casa nova - que anos depois virou a minha também.

Você foi me encontrar lá na Espanha em 2003. Passamos o Reveillon em Roma! Um frrrrrrio. Que coisa estranha aquela gente vestida de preto em pleno ano novo...Nossa ceia foi uma salada de rúcula e tomate e uma pastinha semi-pronta, tudo no improviso no apê do compadre Vincenzo. Como vou me esquecer? Para mim, eram essas coisas simples que faziam a nossa vida a dois valer a pena, como aquela nossa fase noveleira debaixo das cobertas. Esperava ansiosa você chegar do trabalho e dizia: rápido, rápido, vai começar!!! E você vinha rapidinho se juntar a mim.

No teu peito dormi tantas vezes. No teu cabelo ondulado eu passei meus dedos nas noites de insônia. Na cabeceira da nossa cama um quadro indicava que ali tinha sim um matrimônio, ainda que insistam em dizer que o nosso não era de verdade. Meus livros se misturaram ao seus. Sua inteligência se somou ao meu carisma. Nossas filosofias no café da manhã sempre fizeram o meu desjejum ser mais estimulante.

Teve uma fase que você me pegava no trabalho. Teve outra que era eu que te pegava. Dividíamos o carro, a casa, os projetos. Meu sonho era ter um filho com esse seu olhinho caído (e o seu nariz, claro! O meu, nem pensar...). Teu sonho era morar fora, fazer grandes trabalhos, conquistar um mundo de coisas. Sempre lutei para que você realizasse cada um deles. Fui guerreira ao teu lado – que é como se há de ser quando se ama tanto.

Você sempre me apoiou nas minhas ideias malucas de trabalho. Nos projetos que nunca deram certo. Mas você sempre foi o primeiro a acreditar. Você acreditou mais em mim que em si próprio. Lembra aquela vez que eu trabalhei com aquela gorducha? Eu acordava de madrugada e te dizia: não quero ir! Não quero ir! Tal qual criança com pânico da escola. Você me abraçava e dizia: então não vá. E graças a você tomei a decisão mais sábia de pedir demissão em três semanas.

Você também foi me encontrar na Nova Zelândia! Lá a gente se divertiu um bocado. Lembra daquele “carrinho de rolimã” lá em Rotorua? E a dificuldade de achar um restaurante aberto em plena segunda-feira naquela cidade de nome bizarro (Otrahonga!). O meu medo de você dirigindo na mão inglesa! Lá descobrimos que Marri ia ter bebê. Compramos um charuto pro Edgar e um body do All Blacks para o feijão que ainda não tinha sexo. A Marina (o ex-feijão) está usando o body agora. E tem a Sofia, que nos batizamos quando ela tinha dois anos. Logo depois, o pai dela morreu e eu vi você chorar pela primeira vez.

São tantas histórias...um dia ainda conto aqui no blog aquela das flores na janela, que já se tornou um “causo” na minha família. São tantos álbuns de fotografia. Tantos abraços e beijos registrados (até da gente passando mal de gripe e febre no Uruguai). Tanto amor, tanto amor...

...mas inexplicavelmente uma hora o amor acaba. A luta continua e o casamento tem sobrevida porque carinho e respeito ainda há. Chega num ponto do relacionamento que é melhor cada um seguir seu rumo e se tornar melhor sozinho que seguir adiante em nome do amor que se foi e do carinho que ainda existe. Antes que carinho azede e birra de dia-a-dia torne tudo mais difícil.

Não tivemos a Marília, nome que você sempre sonhou em dar para nossa filha. Será que o mundo dará voltas e vamos tê-la um dia? Ou será que Deus todo caprichoso te reserva uma Marília com outra mulher? Não faço a menor ideia. Hoje, olho para o futuro e não vejo nenhuma resposta. E, pela primeira vez em oito anos, não faço planos ao seu lado.

É estranho à beça. Sentimento confuso e torto. Mas é um momento que tem que ser vivido. Do contrário, não avançamos.

Quando penso em uma separação doce, como vem sendo a nossa, penso em Drão, a música do Gil. E concluo:

Drão!
O amor da gente
É como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar nalgum lugar
Ressuscitar no chão
Nossa semeadura

Um beijo enorme

27 comentários:

Larissa disse...

Continuo aqui, torcendo pro melhor de vocês dois... Que se for pra ficar distantes, que seja com respeito, com carinho, e sem (muita) dor.

Bjs querida!

"A gente procura um analista em busca de definições. E depois de quase 3 anos juntos você descobre, que não há definição. Vida é falta de definição. É transitória mesmo. Agora eu entendi. Não tem a portinha certa. Não tem o mapa da mina. O mapa muda toda hora. A mina pode explodir a qualquer hora e qualquer lugar. (...) Tudo que eu preciso é conviver bem com meu desalinho, com minha inconstância e com as surpresas que a vida traz. (...) Se eu tive problema um dia, não foi por falta de felicidade." (Divã)

17 de junho de 2009 13:44
Roberta da Purificação disse...

Debora, o olho encheu de lagrima, mas estou no trabalho e tive que me conter. Releio em casa... Muita generosidade sua compartilhar!
bjs

17 de junho de 2009 14:39
lioness disse...

Queria poder pensar tão doce a respeito do meu...
talvez seja porque a dor ainda é maior que a visão da realidade.
Linda carta.
Um amor assim nunca acaba.

17 de junho de 2009 14:41
Rachel disse...

Sempre passo por aqui, mas nunca tinha deixado comentario. Desta vez, não pude evitar. Lindo post, até chorei. Obrigada por compartilhar e tudo de bom nesta nova fase!
Beijos

17 de junho de 2009 14:48
3 x Trinta - Solteira, Casada, Divorciada disse...

Lindo texto, amiga. Também fiquei emocionada.

Agora, deixe-me falar com Charlie (será que ele vai ler isso? Espero que sim):

Querido,

Saiba que vc já está eleito campeão no concurso "The best ex-husband ever", viu? Acabei de criar e te indicar para o posto.

Fique bem e arrase aí na sua nova vida de divorciado. Aproveita para passar o rodo, hahaha!!!! Esses primeiros momentos são difíceis, eu sei, mas depois ficam divertidos, acredite.

Beijos (para você e para a Debs)

Bela

17 de junho de 2009 14:59
Ana Claudia Lourenço disse...

Poxa, que carta mais linda!
Parabéns à vocês dois que conseguem encarar a separação com tanta maturidade e respeito...porque nem todos conseguem, o que é uma pena!
Afinal de contas porque o amor tem que acabar com ódio e ressentimento, não é mesmo! O amor pode ter acabado, mas deve ficar sempre o respeito pelo outro!
Bjão pra vcs!

17 de junho de 2009 15:17
Candy disse...

Débora,

Incrível como você conseguiu resumir uma história tão linda!!

Parabéns

17 de junho de 2009 15:33
Melanie Brown disse...

Que carta maravilhosamente doce...Nunca li nada igual, nao que tenha sido real.Me admira muito mais o teu reconhecer do nao ter dado certo, uma coisinha tao perfeitinha que foi teu casóio.Bom, beijosss enormes e carinhosos no teu coraçao!!!!

To lendo um negocinho o nome de um dos personegnes é:Charlie!Tomei um susto quando vi!RS

:D

17 de junho de 2009 16:44
Cristiane disse...

Querida Deb
Já te disse que chorei no início da carta por dois motivos: por vocês dois, porque a vida e história sempre foi linda e também porque senti essa mesma sensação na minha separação, apesar de não ter compartilhado.
Espero que o Charlie leia e sinta o carinho das palavras. Como o meu ex mesmo me disse: nunca ninguém pode dizer que não deu certo, deu certo por 8 anos.
Espero que vocês sejam muitos felizes, separados ou juntos. Afinal nada é eterna e não sabemos o dia de amanhã. Quem sabe a Marília ainda apareça.
Beijos
Cris

17 de junho de 2009 17:53
Mit disse...

Ok !!! Eu chorei muitoooo com a carta q vc escreveu ao seu "ex"
Eu não cheguei a casar com o meu "ex-namorado" mas é engraçado como mesmo distantes, parece q vivemos um casamento por 1 ano e meio que mais parecem 10 anos de nossas vidas. É uma história totalmente confusa (e longa) mas a sua carta me faz lembrar o quão importante o "mexicano" foi na minha vida e até hoje continua sendo (mesmo com todas as neuras dele).
O que pude notar por sua carta é que, por mais que vc negue, não existe apenas carinho e respeito. Você ainda o ama e muito. Mas também, com tudo isso q vc contou tem como não ama-lo???
Espero q um dia o mundo sim dê voltas, dè um giro de 360º e q vc´s dois tenham a Marilia. Assim como espero ter a Juliana :(

17 de junho de 2009 18:58
Denny disse...

Tudo bem: o blog é, em maioria, feminino. E daí? O fato é que tenho pavor de separações. Lendo a carta da Débora senti a mesma angústia de alguns meses - quando me separei de uma namorada de longa data. Às vezes tenho plena convicção de que o ser humano não foi feito para se separar das pessoas que ama. Que droga. Débora, duas coisas: a primeira é que invejo muito o modo como encara algo, para mim, extremamente trágico; a segunda é que, para mulhes com caráter como você, tenho certeza de que a vida trará muita coisa boa. Beijos e fica bem...

17 de junho de 2009 19:19
3 x Trinta - Solteira, Casada, Divorciada disse...

Querida,
quisera todos tivessem a sua maturidade, a sua genorisidade e a sua sabedoria para enxergar o que realmente importa. Adoro vocês dois e tenho certeza que saem dessa relação melhores do que entraram. Cuide-se, já, já tô aí!
Beijos, Gio

17 de junho de 2009 19:53
Andarilho disse...

Simplesmente Lindo. Tenho certeza de que se um dia recebesse uma carta assim, meus olhos se encheriam mais de lágrimas do que já estão.

17 de junho de 2009 20:36
www.garatujas.blogspot.com disse...

Era pra ser assim todo final de uma linda e grande história de amor!

Bj

17 de junho de 2009 21:01
Ricardo Suman disse...

FOFA!

17 de junho de 2009 23:08
Mari ^^ disse...

Nossa...eu to emocionada com essa carta.
Me fez pensar e relembrar tudo que aconteceu comigo...
Hoje eu tenho uma visão diferente do passado...sinto que amadureci...
Levei quase tres anos para aceitar o fim de uma relação sem futuro que deixou tantas cicatrizes.
Hoje entendo que foi o melhor...e tenho alguém tão maravilhoso comigo, que mtas vezes me pergunto...porque não me dei essa oportunidade antes?

E dificil, uma fase xata, mas que assim como te traz lágrimas nesse momento, nos traz aprendizado e coragem para o futuro.

Boa sorte Debora, msm não te conhecendo, acompanho o blog de vcs sempre...e nesse momento...estou torcendo muito por vc.

Um beijo carinhoso para as três =)

18 de junho de 2009 01:01
Johnny na Babilônia disse...

Lindo!

18 de junho de 2009 09:47
Carol Gonçalves disse...

Debora compartilhamos com vc a sua dor.... e compartilhar significa sentir a dor tb pois, quando li sobre a sua separacao tive um choque e ao ler esse post lagrimas.
Posso compartilhar aqui uma alegria, estou morando na inglaterra apos fali meu negocio(sou administradora de empresas) e achar que nao tinha qualificacoes profissionais e minha vida emocional era inexistente.... depois de 1 mes e meio aqui, me sinto feliz, mudada e o melhor apaixonada.Conheci o MIguel um portugues fantastico e que me fez ver e acreditar que tudo pode e deve dar certo.
Forca.
Carol

18 de junho de 2009 12:16
Sheila disse...

Ah, esses finais! Quase acho que quando tem briga é menos dolorido do que quando ainda tem tanto carinho. O que fica pela metade é o que mais machuca...

18 de junho de 2009 14:19
Fernanda Crancio disse...

Débora, texto lindo demais, deu para sentir o afeto, a melancolia e o amor que agora virou amizade. Me emocionei também!
Abraço e boa sorte na nova vida!!

18 de junho de 2009 16:54
Mariana B. disse...

chorei.
é muito carinho mesmo. Que relação incrivel..

18 de junho de 2009 20:58
Beta disse...

acho maravilhoso sua honestidade...se abrir para muitas pessoas que nem tiveram o prazer de te conhecer pessoalmente(eu, por exemplo)...acho magnífica sua maturidade...
acima de tudo forte...por se revelar humana...

Querida, aquela frase piégas e batida...o tempo cura, ajeita...senhor de tudo!

se a gente se levanta de experiências tão ruins na Vida, sair com calma e respeito como Vocês estão fazendo será ótimo para os dois...para seus futuros...juntos...ou não!

Um Abraço apertado!

19 de junho de 2009 10:02
Anônimo disse...

Dé!

A carta é linda... e os sentimentos também. Será que eu chorei? rs Nem consegui comentar nada na hora. As palavras se esconderam e apenas as lágrimas fluíram, fluíram... assim como flui o rio da nossa vida.

Te amo!

Bjs!

Geo

19 de junho de 2009 13:48
Ana Paula disse...

Débora,
bem vida ao clube! Também estou passando por isso. hj recebi uma poesia de uma amiga que tem tudo a ver com esse momento e que queria compartilhar com você. bjs
Ana

De tudo o que ficou?!?

“De tudo ficaram três coisas...
A certeza de que estamos começando...
A certeza de que é preciso continuar...
A certeza de que podemos ser interrompidos antes de terminar...
Façamos da interrupção um caminho novo...
Da queda, um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro!”

Fernando Sabino

19 de junho de 2009 17:49
Rita H. Abematsu disse...

Força aos dois... é triste ler isso e pensar que acabou, mas a vida é pura transformação e só a Deus pertence o resultado destas transformações.

Espero que Charlie possa ler isso, mas quero muito bem aos dois. Quando precisar, os dois, sabem que tem um ombro amigo, se quiser sementinhas na orelha também vale ;)

Abraços aos dois.

21 de junho de 2009 20:18
Patricia Digue disse...

A parte mais estranha é mesmo quando a gente não pode mais fazer planos ao lado daquela pessoa, tem que fazer um esforço mental enorme.

Bjs da Solteira

19 de janeiro de 2011 20:11
Roberta Nina disse...

Nossa Debs, que lindo isso.
É doído, mas não deixa de ter serenidade, generosidade e AMOR nas tuas palavras e no teu coração.
O que fica mesmo são os bons momentos e isso vocês tem de sobra.

"Drão, não pense na separação..."

Beijos,
Nina!

20 de janeiro de 2011 15:48