sexta-feira, 6 de maio de 2011

Não ser mãe por escolha

Oi pessoalzinho!

Hoje começa o nosso "pacote Dia das Mães". Serão três posts seguidos sobre o tema. Começamos hoje com a participação especial da psicóloga Valéria Meirelles, que nos conta sobre sua opção de não ter sido mãe.


Amanhã é dia de um artigo bem interessante sobre a forma como as pessoas questionam as mulheres sobre ter ou não filhos.



Por fim, no domingão, uma amiga da Bela que sempre sonhou ter filhos conta como está sendo seu primeiríssimo dia das mães!



Boa leitura!



beijos do Trio

Ontem conheci por telefone a jornalista Débora, com quem conversei sobre minha paixão profissional atual: Psicologia do Dinheiro. Depois de quase uma hora, falando sobre educação financeira de crianças, ela me perguntou se eu tinha filhos. Respondi que não e pairou no ar em clima de reticências. Calejada que sou no assunto, disse que não tive por escolha e mais uns minutos de conversa, Débora perguntou-me se eu gostaria de escrever para o blog e partilhar minha experiência.

E aqui estou eu, aos 44 anos, dizendo mais publicamente impossível que já aos 20 e poucos anos, diria que aos 25, com três anos de casada, percebi que filhos não seriam para mim. E olhe que me casei sonhando com 3 lindas crianças ao redor de uma mesa na hora do almoço, com aquela algazarra toda. Sim, já sonhei em ter filhos, afinal, sou filha única e queria viver uma história diferente.

Meu casamento foi se mostrando pouco sólido para receber uma criança, embora fosse o sonho de meu ex-marido. E eu, que desde os primeiros anos de faculdade já direcionava meus estudos às crianças, sentia que ali, naquela união, não haveria “ninho” para as minhas. Aos poucos fui me dedicando ao trabalho e à minha carreira. O prazer que sinto nisto tudo é enorme, razão pela qual fui chamada de “workaholic” . E era ali que descobri que queria colocar minha energia.

Quando há pelo menos 15 anos passei a dizer que não queria filhos, ouvi muita bobagem e fui “atacada” socialmente, com palavras e acusações diversas, principalmente por pessoas próximas. Parecia que era proibido não querer ter filhos!

E assim, entre tantas razões, meu primeiro casamento acabou. No pós-divórcio descobri o gosto de se ter liberdade e não ter ninguém dependendo de você emocionalmente. Dediquei-me à profissão, fiz mestrado, mas também desfrutava do tempo livre para mim. Ser chamada de egoísta era comum e fui me acostumando sem ficar chateada ou irada.

Em meu segundo casamento, meu ex- companheiro tinha filhos grandes e, após uma conversa séria, eu optei de uma vez por todas em não ter filhos. Eu havia descoberto o universo motociclístico e das corridas de ruas, viajava, divertia-me muito , tinha minha tão sonhada autonomia e ali, se ainda existia alguma brecha para maternidade, ela se foi. E ponto final.

Por muito tempo me incomodou o fato de ter sido tão simples para mim não querer ter filhos, que até eu duvidava de minha segurança. Tenho uma lista de pequenos fatores que podem ter influenciado esta escolha, a começar pelos casos de consanguinidade na família de meu pai que geraram algumas pessoas limítrofes. Mas as razões são minhas mesmo, de ordem pessoal: não sinto vontade de ser mãe, simples assim. E dei uma “trabalhada” nisto em terapia só para me garantir.

Simone de Beauvoir diz que maternidade não é destino e isto me aliviou. Não é porque tenho um útero que sou obrigada a gerar um filho.

Interessante é que anos atrás, quando dizia às pessoas que não tinha filhos, ficava um silêncio. Aí as mulheres me perguntavam o porquê e não satisfeitas com minha respostas, sugeriam alternativas para uma criança em minha vida, tipo adoção ou inseminação artificial. Algumas vezes fui obrigada a dizer que aquilo que era equívoco e que eu não queria filhos. E a conversa acabava por ali.

Ouvi muito que ficaria sozinha na velhice ( mas quem garante que os filhos iriam cuidar de mim? Tem tantos que não cuidam de seus pais), ouvi que minha vida seria um vazio, enfim, se estivéssemos na época da inquisição, provavelmente eu teria sido queimada na fogueira, na caça às bruxas. No meu consultório ( fui terapeuta infantil durante 16 anos), alguns pais chegaram a questionar meu trabalho pelo fato de não ter filhos. Felizmente nenhum deles tirou a criança do tratamento depois de minha resposta.

Confesso que a única parte que me pegou um pouco foi a minha mãe. E sabem por que? Sou filha única. Ouvi muito, mas muito mesmo, que era uma injustiça não dar pelo menos um netinho à minha mãe, que é daquelas mulheres adoráveis que fazem tricô, crochê e afins para a sobrinhada toda e para quem mais pedir.

Até que um dia, num passado recente, conversamos abertamente sobre isto e o resultado desta conversa veio há uns meses atrás, quando ela me contou que uma nova amiga sua perguntou se eu não tinha filhos e claro, por que. Minha mãe respondeu que meus “filhos” são outros: o trabalho de psicoterapia que faço, o livro que organizei, a nova área de Psicologia do Dinheiro que estou desbravando. E que ela me vê um pouco à frente de meu tempo, com minhas idéias e ideais.

Alívio total, lágrima nos olhos, “dívida” anulada. A minha marca ao planeta eu quero deixar de outro jeito, não necessariamente com um filho, que sei pelas pessoas que conheci ao longo da vida , que é a mais profunda experiência amorosa. Mas também há outros tipos de experiências de amor e abro-me para elas e me comprometo a fazer uma vida criativa.

Numa sociedade em que a tradição ainda se revela por detrás da modernidade, temos que aprender a manter nossa coerência e construir novas histórias, a partir de um referencial próprio. Busco sempre novas atividades, detesto rotina e tenho pessoas maravilhosas ao meu lado.

Aprendi que não há uma vida ideal, mas uma vida possível. A minha é esta: possível dentro de meus desejos, valores e princípios, que busco renovar a cada dia, com o amor dedicado a mim mesma e a todos que me cercam, pois cada pessoa gera um tipo de vida, que não necessariamente tem que ser um ser humano vindo de suas entranhas.

Valéria

17 comentários:

Alessandra Safra disse...

estou próxima dos 30 e também não quero ter filhos. Também já ouvi coisas absurdas por isso. engraçado que no meu caso sempre é a família que tenta [se valendo do direito consangüíneo] proferir seus achismos sádicos. Ainda estou na fase da ira. mas creio que em breve eu deva nem ligar mais. EU ESCOLHI NÃO TER FILHO! E tenho medo de ficar velha e sozinha, sim, mas não terei filho para fazer dele previdência [não garantida] de velhice. Não quero que meus pais sejam peso na minha vida, tampouco quero ser na vida de alguém. Falo isso pq é comentário recorrente, o medo da solidão na velhice. E quem garante a velhice? se eu sobreviver até lá, meu trabalho. Já trabalho pensando naquela senhorinha que serei. trabalho para lhe garantir sustento, teto e dignidade. Se eu descobrir velhinha uma doença terrível, tbm já estou planejada para isso. A vida da medo, mas meu peso carrego eu. e SOZINHA. Ai que delícia.

Ale Safra.

Autora do blog Dedos Não Brocham.blogspot.com

6 de maio de 2011 01:11
Inaie disse...

Eu acho que o grande problema das relacoes interpessoais e o direito que as pessoas se dao de julgar o outro, de decidir o que e melhor, o que esta ecrto, o que e permitido...

Eu sou a favor de celebrar as diferencas!! Sempre.

6 de maio de 2011 05:12
Andarilho disse...

Eu sou a favor de não ter filhos, já tem muita gente botando gente neste mundo. É a coisa mais ecológica que alguém pode fazer.

6 de maio de 2011 08:48
Olívia disse...

Não sou radical como o Andarilho, mas com certeza acredito e muito que as pessoas são donas dos seus caminhos e elas que decidem o que querem por no mundo. Pode ser um filho? Claro, mas também pode ser um livro, uma música, uma arte!

Ultimamente ando pensando muito se quero ou não ser mão. Por enquanto o SIM está vencendo, mas anda diminuindo com os anos.

Adorei o POST. Pessoa ótima e com um coração enorme para seus "bebês"

Bjss TRIO que eu adoooro =)

.Olívia.

6 de maio de 2011 09:15
Anônimo disse...

Eu não tenho filhos e sou muito julgada por isso...é uma cobrrança que me irrita. E o pior é que a maioria delas vem dos amigos. Outro dia fui num churrasco de uns amigos do meu marido e a esposa de um deles( que eu acabara de conhecer)me perguntou se eu tinha filhos e respondi que não. Ela elevou a voz e com um espanto enorme me perguntou o motivo . Eu disse que não sentia vontade. Aí as outras me condenaram e dispararm a seguinte frase: " Um casamento é mais feliz quando há filhos, os filhos completam o casal! "
Não podia deixar passar e retruquei:
_ Sério? poxaaaa....e pq é que tantos casais separam mesmo tendo uma penca?
Olha fulana, eu e meu marido somos muito felizes. Fazemos o que queremos e nos bastamos. Se um dia tivermos um filho, ele será amado e muito. Mas não virá para suprir uma necessidade, nem quebrar uma rotina, nem segurar casamento.
Selma.

6 de maio de 2011 09:46
Giselle Mota disse...

Adorei a frase sobre a sociedade, perfeita! O pior de tudo, eh que as mulheres muitas vezes fazem essa escolha so para acompanhar a maioria, e no fim o que vemos? Pessimas maes!
Beijos

6 de maio de 2011 10:59
Evelin disse...

Hahahah “coisa ecológica”... Só o Andarilho mesmo. =)
Well, sobre ser mãe, é tão confuso para mim... Se me casa-se hoje e desse a notícia de que optei por não ter filhos, aconteceria a terceira guerra mundial! =/
[...]
Adorei o texto.
Evelin

6 de maio de 2011 11:49
Tati disse...

Eu desde criança tinha fixo na minha cabeça que não iria ter filhos, até q "acidentalmente" aos 17 anos tive, só de imaginar que eu não queria ter a cia doce dela me dói, rsrs. Minha vida, minha melhor amiga, meu tesouro, não tenho mais filhos pq a proposta era não ter nenhum, mas ai vem as cobranças de um segundo, pq o casamento e estavel, blá.. blá.
Na verdade cobranças existem sempre, principalmente aquela sobre a fámilia comercial de margarina. Super normal, não querer.

6 de maio de 2011 13:06
Fernanda Gomes de Sá Paulo Poli disse...

Nossa, parece a minha história...Impressionante!! Até mesmo a descoberta do mundo motociclístico, o marido com filhos de outra relação...Só não sou filha única, o que me permite curtir minhas sobrinhas.
Escrevi sobre isso em meu blog, ano passado, tb perto do dia das mães. http://oespalhafatos.blogspot.com/2010/05/eu-quero-ser-filha.html
Beijos, meninas. Adorei!!

6 de maio de 2011 13:33
João do Espírito Santo disse...

Que bonito ver uma escolha sendo feita com tanta liberdade, coragem e discernimento.

Mais do que o tema em sí, a forma como lidou com o processo de escolha foi o que mais me encantou.

Ficou uma curiosidade, você também discerne outras áreas da sua vida com esta mesma clareza?

Parabéns, Valeria.

6 de maio de 2011 13:44
Anônimo disse...

Muito Bom! Parabéns Váléria por se posicionar muito bem, és uma mulher retada que é como se diz aqui na Bahia.
Grace

6 de maio de 2011 14:18
Sara Lima Saraceno disse...

Filho tem que ser uma opção consciente da pessoa (e porque não dizer, do casal?), pois são serezinhos que tomam completamente nosso tempo livre, dinheiro, noites de sono, etc. Mas, evidentemente, nos dão um prazer inigualável (pelo menos para quem optou por tê-los). Não imagino minha vida sem minha filha, mas acho o MÁXIMO que as pessoas saibam reconhecer em si o sentimento e a vocação para a maternidade e não façam desta uma obrigação. Ponto para a autora do post!
Portanto, minha cara, SEJA FELIZ com a vida que escolheu!
Um beijo grande!
http://vivendoavidacomoelaeh.blogspot.com/

6 de maio de 2011 16:18
Anônimo disse...

Oi Valéria,

Adorei ler o teu texto. Achei tão sincero. Eu tenho um filho pequeno e só não tenho mais um porque acho que vai faltar grana para dar conta dos dois. Mas queria aquela mesa cheia de crianças na minha casa. Mas entendo quem não quer ter filhos, acho que há sim outras formas possíveis de felicidade. Sou feliz com meu filhote e minha familia, mas também era antes, sem eles, vivendo as outras coisas boas da vida. Acho que vc resumiu bem uma verdade em uma das suas últimas frases: não existe vida ideal, existe vida possível, cada um tem seu caminho, sua história. Bjs! Se cuida, amor e sorte em tudo. Isaura

6 de maio de 2011 16:41
3 x Trinta - Solteira, Casada, Divorciada disse...

Arrasou, Valéria, adorei. Obrigada pelo texto.

Andarilho, morri de rir, hahaha!!!

E viva a pluralidade, minha gente. Cada uma na sua. Escolhendo o que achar melhor. Não suporto os donos da verdade absoluta.

Beijão, Valéria, beijos, todos,

Bela - A Divorciada

6 de maio de 2011 16:44
Ana disse...

Valéria,
Adorei o texto.
Durante muito, muito tempo, pensei em não ter filhos, mas acho q era o medo que eu tinha (tenho) das responsabilidades que vem com um filho. Não sou filha única, mas não tenho mais a minha mãe por perto e aí decidir experimentar esse amor que tantos falam até para tentar suprir a minha carência da falta da mãe. Fui convencida e vencida por mim ou pelos outros e hoje estou esperando um bebê. Tô muito feliz e tenho certeza que cada um é feliz com suas próprias escolhas. Concordo com Bela e não suporto os donos das verdades absolutas.
Ah! E amei sua frase "Aprendi que não há uma vida ideal, mas uma vida possível". Eu ainda tô aprendendo...
Bjs e sucesso com os seus "filhos" profissionais e tão desejados quanto os que nascem do útero ;-)

7 de maio de 2011 16:23
Anônimo disse...

Adorei o texto! Mas eu estou do lado oposto: eu e meu marido decidimos tentar nosso primeiro filho!
Ontem, em pleno Dia das Mães, tomei o último comprimido da minha cartela de anti-concepcional.
Mas muitas dúvidas estão me atormentando: será que estamos preparados? É a hora certa? Vamos conseguir? Vou saber conciliar filho + marido + trabalho + casa + minha individualidade?
Aproveitando os textos de Dia das Mães, gostaria de sugerir o tema: Como saber que é a hora certa para engravidar?

Abraços

PS: não assinei o comentário pois ainda é segredo! Não quero me sentir pressionada...

9 de maio de 2011 13:27
Anônimo disse...

Filhos é uma OPÇÂO!

29 de agosto de 2011 14:12